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30/09/2010

Da austeridade




As medidas anunciadas ontem pelo 1º Ministro deixam-me nostálgica em relação aos meus tempos do Reino Unido.

Muitas vezes dou por mim a pensar o que foi que nos deu na cabeça para regressar a Portugal. Em boa verdade tinha muitas saudades da família, dos amigos, do sol e mar, dos cafés na esplanada a sentir o frio do Inverno na cara mas sem chuva, dos pães com manteiga e meia de leite de manhã no café. Tantas e tantas coisas e sobretudo os pormenores que são impagáveis e que me fazem acreditar que sou sem dúvida uma alma lusitana saudosista. Ainda me lembro de ligar pelo “Telediscount” à minha mãe religiosamente todos os sábados à noite depois do jantar. Ficava mais de uma hora a trocar o telefone de orelha para orelha e a falar das trivialidades dessa semana. Falava com a minha irmã e lembro-me que perguntava sempre em cada telefonema como estava o tempo e o que tinham jantado. Acho que isto é tão típico de um português. Lembro-me que quando desligava ficava sempre com um frio no estômago e uma sensação de "eu podia estar lá".


Acho que o telefonema que mais me custou foi o que fiz numa noite de S. João. Eu e o marido sozinhos em casa com o cão numa noite fria, chuvosa, com a televisão a falhar (tv cabo via satélite), tal como muitas outras de Manchester. Ligar para o Porto e ouvir do outro lado toda a família (somos muitos) numa típica sardinhada de S. João em casa dos meus pais. Ouvir os risos, saber que estava uma noite quente, quase que sentia o cheiro da sardinha a assar nas brasas...todos a mandarem beijos. E depois desligar o telefone e o silencio. Chorei muito nessa noite e é essa noite que me vem à memória cada vez que me sinto tentada nem que seja a pensar em regressar. Passei por momentos complicados, morte da avó, do padrinho e viagens a Portugal para esses funerais. Tempos muito difíceis. Mas por alguma razão esse S. João marcou-me muito.

Por isso é que fico triste com estas notícias, porque fui daquelas que emigrei, lutei, adquiri património até, melhorei o CV mas que no fim voltei com a esperança de poder aplicar os conhecimentos adquiridos no nosso país. É que nem vale a pena comparar o nível de vida daquele país com Portugal, porque só isso dará um post completo. Sei que é mais difícil por cá, burocracias, civismo, saúde, educação um sem número de coisas. O que custa, pelo menos a mim, é ver que nem a pouco e pouco as coisas parecem melhorar. Isto dito por alguém que até pode ser considerada privilegiada, tenho casa, emprego bem remunerado de que gosto, seguro de saúde e o marido também. Mas se fosse só por isso teria ficado por lá. Gostava de ver o dia em que Portugal evolui, em que pensões, abonos, saúde, educação não são lutas diárias.

Fico triste. Penso no que poderia ter lá, na facilidade de evolução, no culto da experiência profissional e não do “canudo”, no respeito pelo próximo, no atendimento hospitalar...na casa que ainda temos lá. E apesar de saber que aquele país vai ser sempre uma segunda casa e aquela foi a nossa primeira casa, quando sinto que esse sentimento está forte penso naquele S. João e é suficiente para abalar esse pensamento.

2 comentários:

redordead disse...

prefiro não comentar, porque me estristece bastante esta situação em que os meus amigos (como tu) e familiares se encontram em Portugal

Conde disse...

Às vezes a vontade é muita nem que seja por aquele parque maravilhoso onde com muita chuva, pouca chuva, muito frio, pouco frio, neve, gelo e outras coisas passeavamos o fusco todos os dias... a vida lá era melhor, sim, mas amor... quem nos tira este pedaço de frustração à beira mar plantado... tirava nos mais do que a mera saudade...